Jurassic Blog

Eu resolvi fazer um blog, e o primeiro post é sobre os motivos que me trouxeram aqui.

Se você não me conhece, olá, muito prazer! Eu sou a Marina. Marina Dutra, eu gosto do meu sobrenome. Gosto do nome também. Tive meu primeiro blog no ano 2000. Para ajudar a contextualizar os mais jovens, nessa época a internet era bem diferente de como é agora: pra começar, era discada e o pulso contava como ligação, então a não ser que fosse uma urgência, só se acessava a internet livremente após a meia-noite. Uma coisa meio cinderela às avessas. Até porque a linha ficava ocupada e ninguém conseguia fazer ou receber ligações e usar a internet ao mesmo tempo. Não havia ainda buscadores como o google e, para acessar um site, você tinha que, pasme, saber o endereço dele. Facebook, instagram, e outras redes que hoje dominam os aplicativos sequer existiam e o mais tecnológico que um celular tinha era o jogo da cobrinha. Ah, celulares eram raros e caros. E pareciam tijolos. Quando alguém tinha era símbolo de status, lembro que o pai de uma amiga tinha celular porque era médico, ganhava bem e tinha "urgências" do trabalho. Ninguém ligava pra celular pra ficar de papo (hoje em dia só telemarketing liga pra celular). Adolescentes sequer sonhavam em ter o aparelho, e ninguém imaginava que eles virariam mini computadores que batem fotos.

Sim, durante a era de ouro do bate-papo da Uol eu tinha um blog que se chamava "quarto da Nina". O conceito de blog, quando surgiu, era de diário virtual. E era assim mesmo que eu usava: escrevia nele memórias bobas, pensamentos, colava imagens de bandas e cantoras que me inspiravam. Eu não esperava que ninguém lesse ou comentasse. Não escrevia como especialista em um assunto, não pedia comentários ou likes, era apenas uma série de registros pessoais que eu achava que acessaria novamente no futuro e me divertiria lendo.

Hoje, quando se fala que uma pessoa é "blogueira", a percepção que se tem é de uma pessoa que produz conteúdo sobre algum tema específico e tem considerável repercussão. Blogs evoluíram para revistas virtuais e seus autores viraram celebridades, desencadeando um efeito que reverbera em todas as redes sociais: agora todo mundo quer ser digital influencer. A lógica de produzir conteúdo constantemente, bater metas de likes, ter muitos seguidores (mas seguir pouco) é bastante predatória, pois se todos querem ser seguidos, quem sobra pra ser seguidor? Os próprios meios onde os influencers se estruturam parecem ter percebido essa lógica desenfreada e cobram sua fatia do bolo: cada vez mais os usuários se tornam invisíveis uns aos outros e, se você quiser ser visto pelos seus próprios seguidores, tem que atingir uma meta insana de "interação" em 20 minutos a partir da postagem ou pagar publicidade. Quanto mais você usa uma rede, mais ela te pune e te deixa invisível. E, pra quem não almeja a fama e quer apenas postar suas memórias e interagir com os amigos, essa lógica torna tudo mais difícil: no meio da disputa pelos holofotes, é impossível ser visto quando se é pequeno, os anúncios te engolem e o alcance é nulo. Eu tenho um perfil pessoal em rede social no qual eu não me divirto mais, porque eu não vejo quem eu quero ver, já que entre cada par de propagandas vejo apenas as fotos que o aplicativo considera mais relevantes, mas que não são necessariamente as mais relevantes pra mim. Cerca de 80% das pessoas que eu sigo eu simplesmente não vejo.

Eu resolvi fazer um blog, mesmo que ninguém leia. Não há como voltar à lógica do quarto da Nina, não sou mais capaz de fazer um diário virtual tão honesto e aberto como antigamente. Mas eu quero registrar aqui, além de boas memórias, pensamentos e coisas que eu gosto, coisas que aprendi e que podem ser úteis para outras pessoas. Uma receita ou uma dica de costura que alguém vai encontrar no google, usar naquele momento e depois esquecer onde encontrou. Um lugar onde eu posso postar fotos que eu fiquei particularmente satisfeita de ter tirado sem ter que me preocupar com a harmonia do feed ou com o percentual de engajamento. É isso.

Esse blog é um espaço tranquilo para assuntos que me trazem paz e nada além disso.

Retrato real oficial de quando eu cheguei na internet e era tudo mato.

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